Durante muitos anos, fui eu quem recebeu cuidados.

Sou o filho mais novo. A minha mãe perguntava se eu tinha comido, onde estava, se estava tudo bem. Tratava de coisas que eu nem sabia que precisavam de atenção. Muitas vezes, só percebemos a dimensão desses gestos quando deixamos de os receber da mesma forma — ou quando começamos, nós próprios, a repeti-los por outra pessoa.

Nos últimos tempos, tenho notado que algumas posições se estão a inverter.

Hoje, sou eu quem acompanha. Quem pensa nas consultas. Quem reorganiza horários. Quem procura alternativas quando alguma coisa não funciona. Quem tenta antecipar necessidades que nem sempre são ditas.

Não aconteceu de um dia para o outro. Não houve um momento solene em que alguém anunciou que os papéis tinham mudado. Foi acontecendo aos poucos, no meio das rotinas, das chamadas, dos compromissos e das decisões aparentemente pequenas.

Talvez seja assim que a vida muda quase sempre: primeiro nos detalhes, só depois na consciência que temos deles.

O cuidado também ocupa espaço nas decisões

Durante muito tempo, imaginei o futuro sobretudo a partir das possibilidades que tinha diante de mim. Onde poderia trabalhar. Que projetos poderia aceitar. Em que cidade ou país poderia viver. Que vida gostaria de construir.

Continuo a pensar em tudo isso. Não deixei de ter ambição, curiosidade ou vontade de descobrir outros caminhos. Mas há agora uma pergunta que passou a fazer parte das restantes: a que distância quero estar dela?

Essa pergunta influencia a casa que procuro, o lugar onde escolho viver e a forma como organizo o meu tempo. Não determina tudo, mas também já não pode ser tratada como uma nota de rodapé.

Retrato antigo da mãe de Fábio Daniel, ainda dentro da moldura
A minha mãe, muitos anos antes de eu chegar.

Eu poderia imaginar uma vida noutro país. Em certas alturas, essa hipótese chegou a parecer a evolução mais natural. Hoje, estou a construir uma casa perto da minha mãe.

Não vejo estas duas frases como a oposição simples entre uma vida escolhida e uma vida abandonada. Vejo-as como parte de um processo mais exigente: perceber o que valorizo e construir uma vida que não obrigue uma parte de mim a apagar todas as outras.

Não se trata de desistir

Falar de cuidado torna-se facilmente uma narrativa sobre sacrifício. Não é assim que quero contar esta história.

Não sinto que tenha desistido da minha vida. Não quero ser elogiado por fazer aquilo que, para mim, nasce de uma relação concreta, de uma história partilhada e de uma ideia muito simples de reciprocidade.

Cuidar não apaga os projetos profissionais, os interesses, as relações ou a vontade de crescer. Obriga-me, isso sim, a ser mais claro sobre as minhas prioridades. A procurar soluções em vez de viver permanentemente dividido entre culpas. A aceitar que liberdade não é fazer de conta que não temos vínculos; é conseguir escolher conscientemente o lugar que lhes damos.

Há dias mais simples e dias mais cansativos. Há coisas que consigo organizar e outras que me escapam. Nem sempre sei qual é a melhor resposta. A inversão dos papéis também não é total: continuo a ser filho, continuo a receber dela coisas que não cabem numa lista de tarefas.

O cuidado não é uma transferência limpa de uma pessoa para outra. É uma relação que muda de forma.

Incluir, em vez de escolher entre

Durante anos, habituámo-nos a falar da vida como uma sequência de escolhas excludentes: carreira ou família, ambição ou presença, partir ou ficar, cuidar dos outros ou cuidar de nós.

Na realidade, raramente as decisões são tão organizadas.

O desafio que tenho diante de mim não é escolher uma metade e abandonar a outra. É desenhar uma vida suficientemente honesta para incluir aquilo que considero importante. Isso exige limites, planeamento, alguma renúncia e, sobretudo, criatividade. Mas também dá às escolhas uma coerência que nenhuma lista de objetivos conseguiria dar-lhes sozinha.

Quero continuar a trabalhar, a escrever, a criar projetos e a explorar possibilidades. Quero também estar disponível para a minha mãe com a dignidade e a proximidade que acredito que ela merece.

Não tenho uma fórmula para conciliar tudo. Tenho apenas uma orientação cada vez mais clara: não quero construir um futuro cuja aparência de sucesso dependa de ignorar uma parte essencial da minha vida.

Fábio Daniel e a mãe inclinados sobre um bolo de aniversário
Há mudanças que chegam devagar, no meio dos gestos de sempre.

Durante muitos anos, foi ela quem incluiu cuidar de mim na vida que estava a construir.

Agora, sou eu quem inclui cuidar dela na minha.

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